13 de jun. de 2012

Os conteúdos de aprendizagem pela ótica de Zabala


La verdad
Antoni Zabala, referência internacional na educação, catalão, formado em Filosofia e Ciências da Educação pela Universidade de Barcelona, foi responsável pela maior transformação do sistema de ensino espanhol.
Em seu texto A função social do ensino e a concepção sobre os processos de aprendizagem: instrumentos de análise, In: A prática educativa: como ensinar (1998), Zabala discute a relação da proposta metodológica e as concepções de ensino que o docente possui e enuncia sobre os processos de aprendizagem dos alunos.
Pode-se dizer que atrás de toda proposta metodológica se esconde uma concepção do valor que se atribui ao ensino.
Durante a história da educação houve diversas correntes teóricas sobre o ensino. Atualmente, no Brasil, a mais valorizada é a Sócio-construtivista, a qual tem como principal objetivo a formação integral do discente, ou seja, educar para formar cidadãos críticos e reflexivos.
O professor deixa de ser “o mestre conteúdista” e se torna mediador do processo de aprendizagem dos alunos, possibilitando o desenvolvimento cognitivo, motor, afetivo e atitudinal dos mesmos.
Zabala, nesta obra, inspirado na tipologia de César Coll Salvador, cita quatro tipos de conteúdos de aprendizagens: factuais, conceituais, procedimentais e atitudinais.
O autor afirma que “quando se explica de certa maneira, quando se exige um estudo concreto, quando se propõe uma série de conteúdos, quando se pedem determinados exercícios, quando se ordenam atividades de certa maneira, etc, por trás destas decisões se esconde uma ideia sobre como se produzem as aprendizagens” (p. 33, 1998).
Para fins didáticos, esses quatro conteúdos de aprendizagem serão explicados através da análise de um plano de aula de matemática, retirado do site Nova Escola.


Objetivos
Ler, interpretar e identificar as informações de um gráfico de barra.

Conteúdo

Tratamento da informação: gráfico de barras

Anos

2º e 3º anos

Tempo estimado

Três aulas

Desenvolvimento

1ª etapa

Apresente o gráfico abaixo para os alunos, mostrando e nomeando, se a turma não dominar a terminologia ainda, os eixos verticais e horizontais. Questione: qual o assunto tratado? Quais informações são apresentadas pelo gráfico? O que significam os números que aparecem no eixo vertical? Essa etapa é uma exploração inicial e global, para que as crianças se apropriem tanto das informações (legendas, título, dados fornecidos...) como da estrutura de organização (relação entre os dados). Chame a atenção para o fato de que a estrutura de um gráfico permite identificar algumas informações mesmo sem fazer cálculos, como qual a espécie com maior quantidade de animais. Explique que a leitura do gráfico implica na interpretação dos eixos horizontais e verticais (espécie versus quantidade).

Espécies de animais do zoológico de São Paulo (dados coletados no site)
 
Espécies de animais do zoológico de São Paulo

2ª etapa
Proponha algumas situações específicas de resolução de problemas a partir das informações fornecidas pelo gráfico da etapa anterior. Em dupla, peça que os estudantes respondam algumas questões:

1) Qual a espécie que mais tem animais no zoológico de São Paulo? Quantos são os animais dessa espécie? 


2) Qual a diferença entre a quantidade de répteis e mamíferos no zoológico? 


3) Quantas espécies de anfíbios têm no zoológico de São Paulo? Como você fez para descobrir?


3ª etapa

Em dupla, proponha que os estudantes analisem o gráfico abaixo e elaborem três perguntas que possam ser respondidas com base nele.
Tempo aproximado de vida de alguns mamíferos do zoólogico de São Paulo

Tempo aproximado de vida de alguns mamíferos

Depois dessa atividade, troque as perguntas entre as crianças, para que outros alunos possam responder as questões levantadas pelos colegas.

4ª etapa

Coletivamente, discuta se todas as perguntas puderam ser respondidas. E questione quais não foram possíveis e os motivos.

Avaliação

Apresente o gráfico abaixo para os alunos e peça que, individualmente, respondam às questões:
a) De que trata o gráfico?
b) Escreva duas informações sobre os animais que aprendeu com a leitura desse gráfico.
Os animais e seus filhotes

Os animais e seus filhotes 
 

Antes de analisar o plano de aula e conceituar os quatro tipos de conteúdos de aprendizagem é importante ressaltar que “antes de efetuar uma análise diferenciada dos conteúdos, é conveniente nos prevenir do perigo de compartimentar o que nunca se encontra de modo separado nas estruturas de conhecimento. A diferenciação dos elementos que as integram e, inclusive, a tipificação das características destes elementos, que denominamos conteúdos, é uma construção intelectual para compreender o pensamento e o comportamento das pessoas. Em sentido estrito, os fatos, conceitos, técnicas, valores, etc., não existem. Estes termos foram criados para ajudar a compreender os processos cognitivos e condutuais, o que torna necessária sua diferenciação e parcialização metodológica em compartimentos para podermos analisar o que sempre se dá de maneira integrada.” (ZABALA, p.39, 1998)

Aprendizagem dos conteúdos factuais:
Segundo Zabala (p.41, 1998), “por conteúdos factuais se entende o conhecimento de fatos, acontecimentos, situações, dados e fenômenos concretos e singulares: a idade de uma pessoa a conquista de um território, a localização ou altura de uma montanha, os nomes, os códigos, os axiomas, um fato determinado num determinado momento, etc.”
Por muitas vezes esses conteúdos tem caráter arbitrário, portanto não necessitam de uma compreensão, aprende-se pela cópia e memorização.
No plano de aula estudado os conteúdos factuais são:
  • Títulos dos gráficos: Espécies de animais do zoológico de São Paulo e Tempo aproximado de vida de alguns mamíferos do zoológico de São Paulo;
  • Legendas dos gráficos;
  • Números apresentados no gráfico.

Aprendizagem dos conceitos e princípios:
Para o autor “os conceitos e os princípios são termos abstratos. Os conceitos se referem ao conjunto de fatos, objetos ou símbolos que têm características comuns, e os princípios se referem às mudanças que produzem num fato, objeto ou situação em relação a outros fatos, objetos ou situações que normalmente descrevem relações de causa-efeito ou de correlação.” (ZABALA, p.42, 1998)
O princípio presente neste plano de aula é o gráfico, pois o mesmo significa a relação entre os eixos horizontais e verticais, neste caso, espécie versus quantidade.
A aprendizagem de conceitos ou princípios deve ser o mais significativa possível, provocando um verdadeiro processo de elaboração e construção pessoal do conceito, ou seja, o aluno deverá ser capaz de interpretar, compreender e expor esses conceitos. (ZABALA, 1998)

Aprendizagem dos conteúdos procedimentais:
Zabala enuncia que “um conteúdo procedimental (...) é um conjunto de ações ordenadas e com um fim, quer dizer, dirigidas para a realização de um objetivo. São conteúdos procedimentais: ler, desenhar, observar, calcular, classificar, traduzir, recortar, saltar, inferir, espetar, etc.” (p.43, 1998)
Os conteúdos procedimentais que serão desenvolvidos nessas atividades são:
  • Analisar: os alunos terão que analisar previamente os gráficos para se apropriarem das informações;
  • Ler;
  • Calcular;
  • Interpretar;
  • Elaborar
A realização de ações que formam os procedimentos é uma condição sine qua non para aprendizagem, essas ações são necessárias para que ocorra a aprendizagem dos conceitos e princípios. (ZABALA, 1998)

Aprendizagem dos conteúdos atitudinais:
O termo conteúdos atitudinais engloba valores, normas e atitudes.
No plano descrito anteriormente, pode-se dizer que os conteúdos atitudinais serão desenvolvidos durante a tarefa em dupla e no momento de socialização das perguntas e respostas das atividades. Estas propostas exigem que o aluno tenha respeito com o outro, ajude o colega e coopere com o grupo.

Em suma...
O termo “conteúdo” normalmente é utilizado para nomear o que se deve aprender nas disciplinas e matérias. É uma alusão a quantidade de conhecimento que deverá ser adquirido.
Após a análise do plano de aula é possível perceber que os conteúdos de aprendizagem são “todos aqueles que possibilitem o desenvolvimento das capacidades motoras, afetivas, de relação interpessoal e de inserção social” (ZABALA, p. 30, 1998). Ou seja, o conjunto de aprendizagens possíveis em uma sala de aula está além do que se encontra nos currículos.
Segundo Zabala (p.30, 1998) “tudo aquilo que indubitavelmente se aprende na escola, mas que não se pode classificar nos compartimentos das disciplinas, não tem aparecido e tampouco tem sido objeto de avaliações explícitas” é denominado currículo oculto.
Compreender todos esses conteúdos de aprendizagem nos faz pensar sobre a prática pedagógica do professor, pois  “por trás de qualquer prática educativa sempre há uma resposta a por que ensinamos e como se aprende”. (ZABALA, p.33, 1998).


Paloma Silva

Referências Bibliográficas:

Conexão Eventos, Antoni Zabala, 2/2/2005. 
Disponível em: <http://www.conexaeventos.com.br/detalhe_noticia.asp?id=21>. Acesso em: 22/5/2012.

GALVÃO, Maria Clara. Leitura de gráficos sobre animais do zoológico, In: Nova Escola. Disponível em: <http://revistaescola.abril.com.br/fundamental-1/leitura-graficos-animais-zoologico-643178.shtml>. Acesso em: 22/5/2012

ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Editora Artes Médicas Sul Ltda., 1998.

Morin e seus sete saberes


Iba Mendes
Sete, para muitos, um número místico, mas para Edgar Morin um número complexo. Antes de esclarecer esta colocação devemos conhecer quem é Morin.
Francês, nascido em Paris, em 1921, atualmente com 91 anos, formado em História, Geografia e Direito, é personagem importante nas novas concepções pedagógicas dos séculos XX e XXI.
Seus pensamentos contribuem para a construção e desconstrução de conceitos pedagógicos.
Morin crítica à fragmentação dos conteúdos, afirmando que o aluno aprende quando possui uma visão geral do assunto abordado. Por exemplo, através de viagens, compreende melhor a geografia, do que através dos livros didáticos. Na viagem o aluno viveria e visualizaria o contexto, o todo, e não apenas uma parcela do conceito que é ensinado na escola. Por isso, Morin é considerado o pai da Teoria da Complexidade, na qual condena a fragmentação no ensino e preconiza a interligação dos conceitos.
Uma representação dessa teoria é encontrada na sala de aula:

 “ele vê a sala de aula como um fenômeno complexo, que abriga uma diversidade de ânimos, culturas, classes sociais e econômicas, sentimentos... Um espaço heterogêneo e, por isso, o lugar ideal para iniciar essa reforma da mentalidade que ele prega”. (Pensadores,2007 p.2)

Esse espaço heterogêneo é o ambiente ideal para práticas pedagógicas interdisciplinares, ou seja, a construção de um conhecimento através da união das ciências.
Na obra Os sete saberes necessários à educação do futuro, Morin explora sete caminhos que os educadores podem trilhar para formar um aluno integral, ou seja, um cidadão crítico e reflexivo.
Mas é importante ressaltar que esta obra não se trata de uma receita de “como se deve ensinar”, ela deve ser considerada um instrumento de reflexão importante para a formação docente.

Submarino
Os setes saberes abordados são:

O erro e a ilusão
O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo” (MORIN, p 19, 2000).
O erro, para o filósofo, tem papel fundamental na reconstrução do conhecimento. 
Morin aborda que o conhecimento científico não está imune ao erro e a ilusão, pois ele é construído a partir das percepções humanas que podem ser falhas.
O autor subdivide o erro em três tipos: mental, intelectual e da razão.
Cabe à educação detectar a origem dos erros, ilusões e cegueiras (MORIN, 2000).

Conhecimento pertinente
“O conhecimento do mundo como mundo é necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital” (MORIN, p 33, 2000).
Parafraseando o autor pode-se dizer que “é preciso conhecer o mundo através do reconhecimento global do mesmo”. Por isso ele propõe que o conhecimento seja abordado de uma forma contextualizada, global, multidimensional e complexa. São abordagens indissociáveis no processo de ensino aprendizagem de qualquer sujeito.

Ensinar a condição humana
“Conhecer o humano é, antes de mais nada, situá-lo no universo, e não separá-lo dele” (Morin 2000 p 45).
Logo, uma concepção de que o ser humano deve reconhecer-se como parte integrante do universo ao qual está inserido, ou seja, agindo em seu contexto e tornando-se assim um ser complexo.

Ensinar a identidade terrena
“A riqueza da humanidade reside na sua diversidade criadora, mas a fonte de sua criatividade está em sua unidade geradora” (MORIN, p 62, 2000).
O ser humano é complexo, pois é uma unidade que compõe uma sociedade, também complexa.
Convém ensinar a história da formação dessa sociedade através da união de todos esses seres.

As incertezas
O futuro permanece aberto e imprevisível.” (MORIN, p 76, 2000).
O que é problema agora não é mais amanhã, pois se uniu a outros problemas ou deixou de ser problema. Ou seja, não há um determinismo nas ações a serem tomadas.
Na escola é necessário apontar que não existe ação ou pensamento pedagógico eternos, imutáveis ou infalíveis.

Compreensão
“A consciência de ser solidários com a vida e a morte, de agora em diante, une os humanos uns aos outros” (MORIN, p. 90, 2000).
Diante de tantos conflitos e catástrofes há uma necessidade urgente de promover a compreensão mútua entre os seres humanos.
Cabe as escolas ensinar as raízes da incompreensão humana afim de despertar, a partir de reflexões, a compreensão.

Ética do gênero humano
“Os indivíduos são mais do que produtos do processo reprodutor da espécie humana” (MORIN, p. 102, 2000).
A educação deve promover a consciência de que o ser humano é a união do indivíduo, da sociedade e da espécie.
Logo, o ensino deve conduzir o sujeito à ética que proporcionará um harmonia nessa tríade.

Por fim...
Morin aborda a importância de uma educação unida, livre de conceitos soltos, sem relação com a vida do aluno. Por isso destaca-se a relevância que a teoria da complexidade tem na educação.
Por meio desta obra, ele nos convida a enxergar o Homem de uma maneira realmente ampla e construtiva e a escola deve colaborar com a construção desse homem complexo.


Leandro Alves e Paloma Silva


Referências Bibliográficas:

FERRARI, Márcio. Edgar Morin, o arquiteto da complexidade, In: Nova Escola, outubro de 2008. Disponível em <http://revistaescola.abril.com.br/historia/pratica-pedagogica/arquiteto-complexidade-423130.shtml>.
Acesso em: 20/5/2012.

MORIN, Edgar. Os setes saberes necessários à educação do futuro. Editora Cortez, 2ª Ed., São Paulo: 2000.